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Valec e UFRB lançam livro com os resultados do estudo dos fósseis na área da FIOL

Além dos benefícios inerentes ao transporte ferroviário, como o desenvolvimento das regiões produtoras e a redução dos acidentes nas estradas, a construção da FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) também estimula a produção científica, como no caso do estudo paleontológico na área de influência da ferrovia. Durante a construção, muitos fósseis foram encontrados e removidos dos locais de obra para análise e preservação desse patrimônio.

O trabalho foi desenvolvido por meio de um Termo de Cooperação com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) durante as prospecções realizadas em campo nos anos de 2014 e 2015. O resgate do material fóssil previamente detectado e a prospecção por novos sítios de estudo ao longo do percurso da FIOL rendeu um livro intitulado “Projeto FIOL: salvamento paleontológico. Uma ponte entre a universidade e a sociedade” que apresenta todos os resultados da pesquisa, em formato bilíngue.

O livro é considerado inovador na área da paleontologia por apresentar de forma didática a análise dos fósseis na área de influência da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL).

O lançamento, no dia 30 de junho, no auditório da universidade na cidade baiana de Cruz das Almas, contou com a presença de representantes da Superintendência de Desapropriação e Arqueologia (SUDES) da Valec, da vice-reitora da UFRB, Georgina Gonçalves dos Santos, o reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Evandro do Nascimento Silva, e o diretor do Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas da UFRB, Elvis Vieira, além de outros professores e alunos.

Em seu discurso, o Superintendente da SUDES, Rubens Narciso Dal’Molin, ressaltou o valor da cooperação: “É uma parceria empresa e escola. Nós temos uma coisa em comum, vocês [universidade] fazem um resgate paleontológico e nós [Valec] fazemos um resgate da infraestrutura ferroviária do Brasil”.

Rubens Dal’Molin, superintendente de desapropriação e arqueologia da Valec, destacou o valor da parceria entre as duas instituições.

O livro, considerado inovador na área, é ricamente ilustrado com imagens que projetam como seria o ambiente selvagem caso os animais cujos fósseis encontrados ainda estivessem vivos. A maior parte deles está extinta, como no caso da preguiça gigante que tinha até 6 metros de comprimento. Também fazem parte da lista de antigos habitantes da região baiana, várias espécies de tatus (alguns do tamanho de um carro), além de cavalos, antas e porcos-do-mato que viveram em épocas tão distantes como 16 mil anos atrás.

Braço e antebraço de uma preguiça gigante que viveu na região da Bahia há 16 mil anos.

Ilustração retrata a paisagem repleta de antigos mamíferos na região baiana de Guanambi.

Resgatar esse passado longínquo é a tarefa da paleontologia, executada pelos professores Carolina Saldanha Scherer, Simone Souza de Moraes e Téo Veiga de Oliveira. Além do trabalho de buscar as raízes da vida animal, eles também desenvolveram um trabalho educativo, ensinando as populações lindeiras instruções básicas sobre o estudo e a importância dos fósseis. As instruções, que contaram com réplicas do material original, foram transmitidas nos colégios municipais para professores e alunos, nos canteiros administrativos das obras e para a comunidade em geral.

O livro, publicado pela Universidade Federal da Bahia, foi enviado para registro no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e a mídia eletrônica será encaminha às universidades brasileiras que tenham afinidade com a Paleontologia. A versão online estará, em breve, disponível para acesso público no site da Valec.

Da esquerda para direita: Rubens Dal’Molin (Superintendente de Desapropriação e Arqueologia da VALEC), Carolina Scherer (pesquisadora), Evandro Silva (reitor da UEFS), Simone de Moraes (pesquisadora), Georgina dos Santos (vice-reitora da UFRB), Téo de Oliveira (pesquisador) e Elvis Vieira (diretor do Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas da UFRB).

Entrevista

Para as professoras da UFRB, Carolina e Simone, a paleontologia não é apenas um estudo encerrado no ambiente acadêmico. Tampouco é algo distante, que só vemos nos filmes ou em países de colonização mais antiga. O livro tem a vantagem de disseminar o estudo dos organismos que viveram há milhares, milhões ou mesmo bilhões de anos, e estavam exatamente aqui onde estamos. Por isso, além de explicar a evolução da vida em nosso planeta, a paleontologia também fala de identidade.

Simone Souza de Moraes e Carolina Scherer comandaram o trabalho de dois anos de pesquisa em campo.

Carolina Saldanha Scherer

> Se não fosse a construção da FIOL seria possível realizar um estudo como este?

O projeto e o livro só saíram por conta do contato feito pela Valec com a UFRB. Se não fosse a construção da ferrovia com as escavações e as aberturas de frente de obra não teríamos encontrado esse material.

> Como podemos avaliar o resultado da pesquisa?

Os resultados são as pesquisas científicas que fazemos com os fósseis encontrados e também o livro, que é um livro de divulgação. Então, para o público em geral o resultado também chega. A nossa preocupação foi usar uma linguagem intermediária entre o acadêmico, para uso em ensino, e uma linguagem acessível para que a população também possa compreender.

> O livro traz uma abordagem incomum para estudos deste tipo?

Geralmente, os resultados de pesquisa em paleontologia vêm em forma de artigo. Especialmente aqui na Bahia é o primeiro trabalho que traz seus resultados de forma resumida e em linguagem acessiva para o público em geral.

Simone Souza de Moraes

> Como que os operários da obra participaram do trabalho?

Nós realizamos pesquisa para obter conhecimento e é papel da Universidade divulgar esse conhecimento para a comunidade. No nosso caso, a comunidade envolvia também os operários da obra que estão em contato direto com as escavações. Sem eles não teríamos aceso ao conhecimento cientifico. É um retorno, um feedback que nós damos pelo apoio dos operários e da comunidade.

> Eles não tinham noção do que se tratava?

Todas as vezes que a gente ia a campo eles não tinham o menor conhecimento sobre o assunto. Durante a palestra, eles viam a importância e se lembraram que já haviam ouvido seus filhos falar sobre isso porque fazíamos apresentação nas escolas. Eles entendiam que se encontrassem algum material estariam ajudando os próprios filhos ou primos, a família. Assim, eles reconheciam que a ferrovia, algo que parecia distante porque eles não sabiam exatamente como a obra iria impactar ou não a vida deles traz um impacto econômico, mas também um retorno por meio de uma pesquisa que eles estão vendo o resultado.

> Isso tudo tem a ver com a noção de identidade?

Tem a ver com a noção de pertencimento, saber que aquilo faz parte do passado deles. É algo que faz parte da história de vida deles e que eles podem perpetuar transmitindo para as próximas gerações.

Os organizadores do livro: Téo Veiga de Oliveira, Carolina Saldanha Scherer e Simone Souza de Moraes.


(texto: Flavio Correa/ASCOM)